E enquanto eu olhava o céu limpo da cidade suja, interpunha entre nós seu primeiro muro de palavras. Confusas, atormentadas, sobre tudo e sobre nada: palavras amontoadas umas sobre as outras, como se amontoam tijolos para separar alguma coisa de outra coisa. Eu, mal sabendo que esse — que parecia seu jeito mais falso de ser — seria nas semanas seguintes seu jeito mais verdadeiro, às vezes único.
— Caio Fernando Abreu
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
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Literatura é vida. Sou um escritor, mas meu compromisso principal é com a vida. Em todas as suas manifestações. Não acredito naquele tipo de cara que fica sentado entre livros enquanto a vida passa além da janela, sem que ele a toque. Os livros são importantes. Mas a vida é sempre muito mais. Literatura é também magia. Magia é aquilo que não compreendemos com a razão, e que no entanto existe.
— Caio Fernando Abreu
Fly Me to The Moon
Leve-me para a lua e
Deixe-me brincar entre as estrelas
Deixe-me brincar entre as estrelas
Deixe-me ver como é a primavera
Em Júpiter e Marte
Em outras palavras, segure minha mão
Em outras palavras, baby me beije
Encha meu coração com música e
Deixe-me cantar sempre mais,
Você é tudo que por muito tempo procurei
Tudo que eu venero e adoro
Em outras palavras, por favor seja sincera
Em outras palavras, estou apaixonado por você
Em Júpiter e Marte
Em outras palavras, segure minha mão
Em outras palavras, baby me beije
Encha meu coração com música e
Deixe-me cantar sempre mais,
Você é tudo que por muito tempo procurei
Tudo que eu venero e adoro
Em outras palavras, por favor seja sincera
Em outras palavras, estou apaixonado por você
domingo, 12 de agosto de 2012
go away
Tamborilou nervosa na tampa da mesa de vidro. As unhas
tingidas de rosa choque fazendo uma melodia agonizante. Bufou o ar pelos lábios
crispados, olhou aflita para fora da janela suja e empoeirada, passou a mão
pelos cabelos bagunçados e em desordem, os bagunçando ainda mais.
- Pare por favor, está me deixando nervosa só de lhe
observar.
- Não tenho culpa.
- Na verdade tem.
Ela baixou os ombros sentindo-se cansada, vazia, culpada.
- Talvez eu tenha então.
- Claro que você tem.
Olhou seu reflexo meio distorcido no vidro da janela. Sentia-se
boba, ali, sentada, naquela hora da noite, perdida em um sábado qualquer,
buscando qualquer coisa que a mostrasse uma direção que pudesse servir de
consolo, enquanto fugia das essenciais respostas que tentava evitar a muito
tempo. Analisou a linha dos cabelos, os fios em disparate, os olhos enérgicos
atrás dos óculos, a boca pequena torcida numa feição mais que aflita.
Suspirou mais uma
vez.
- Talvez seja culpa
minha mesmo... Talvez não, é minha culpa. Tentei fazer uma coisa nitidamente impossível
acontecer, só por que sou fria e ridiculamente egoísta, não prestei atenção nos
sinais claros de que tudo isso não daria certo.
[silêncio]
- Não sei o que
fazer. – sentenciou, confiando ao silêncio ambíguo do lugar, a dentro de si
mesma, uma verdade retumbante.
- Eu muito menos.
- Mas você precisa me
ajudar. Precisa me dizer o que acha.
- Acho que você está
louca. Acho que você tem problemas, sei lá. Eu não poderia ajudá-la, mas um
especialista talvez. Não me leve a mal, mas quero terminar esse meu bom drink descansadamente.
- Você quer é me
fazer chorar.
- Você não choraria.
- Está sendo
cruel...
- Estou sendo
realista.
- Acho que devo ir
embora.
- Lá vem você outra
vez...
- Falo sério. A
melhor coisa a fazer agora, talvez, seria sumir por uns tempos. Amenizaria
danos.
- Não, você
prolongaria o tempo dos danos acontecerem.
- Você está vendo de
uma forma errada.
- Conte-me mais
senhorita “preciso fugir”
- Não é fugir. É só
acabar com tudo de uma vez, vai doer muito, mas não machuco mais ninguém.
- Ah.
- Olhe para mim, eu
nem sou bonita, sou só uma mulher carente, iludida, criança, mimada, sem coração
e mortalmente cruel. Não tenho nada a oferecer a ninguém. Estou vendo-me muito
claramente agora, e tudo que eu vejo não me agrada. – encarou-se na tampa de
vidro frio da mesa, seu reflexo batia contra a luz do abajur ao lado e
refestelava em seus olhos. Não a agradava.
- Você tem problemas.
- Eu sou o problema.
- Tome um drink.
- Não sou segura bêbada.
- Eu te asseguro de
qualquer coisa, bebe, deixa de ser chata.
- Preciso ir embora.
Dispensou o drink. Dispensou
mais um olhar aflito ao seu próprio reflexo no tampo da mesa, dispensou a
cantada do cara mais velho da mesa ao lado, levantou-se deixando a mesa que
estava vazia, juntou a bolsa e disparou para a porta. Iria embora.
Annabel Laurino
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Queria dizer tanta coisa, mas roubaram-me a voz, apontaram em mim meus discretos defeitos gigantes, fizeram-me mais baixa, mais frágil, quedavel. Arrumei a cama e olhei tristonha os travesseiros em pilha, jogaria-me sobre eles e deixaria-me por ser engolida, logo, dormiria. E pelo pequeno feixe de sol risonho no céu de um domingo, eu descobriria triste que dessa vida pouca coisa a gente entende.
Annabel Laurino
A Deus dará
Meu individualismo
foi tão grande e de tamanho afeto que me arrobou. Cansada, criança pequena e
carente, desperdicei minhas chances com você, vendei meus olhos incertos e
desliguei minha mente insegura, andei passos de bêbada entre carros apressados
de uma avenida ensandecida. Desagrada-me o triste ritmo e rumo que as coisas,
nossas coisas, tomaram. Nos tornamos estranhos hablando uma língua
desconhecida, desconexa, confusa. Tínhamos tudo e resolvemos ter
nada.
Acho
que não me entendes quando dizes que me entendes. E me perdes quando dizes que
queres me ter. E assim, me ganhas quando dizes não me querer mais. Sem lógica,
banal, to sem voz para continuar a falar, a explicar mais uma vez que nada na
minha mente muito pequena, às vezes ampla, pouca coisa passa batido. Não sei
que rumo tomar. Tento desenhar desenhos em quadros para que você possa me
entender, me salvar dessa fuga inimaginária e você só me joga rumo ao vento,
deixando-o lançar meus cabelos para o alto, sussurrar irresistível nos meus
ouvidos e me mostrar a direção contrária. Distrativo. Me distraio fácil. E você
disse, 'tudo bem'. Aprumei as velas, quando vi, feito barquinho a Deus dará
em alto mar , ondas grandes, e a casa? E a vida certa? E o caminho de
volta? Perdida, suspirei mais uma vez. Você já estava longe, e eu, muito
mais. Nos perdemos.
Annabel Laurino
sábado, 11 de agosto de 2012
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"Não é medo, preguiça ou incapacidade de amar. Eu só preciso de uma coisa nova, viver coisas que não me perturbem."
Gabito Nunes
Gabito Nunes
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
sede
Mais um daqueles momentos dispersos onde a verdade, a razão, o desejo, o correto, o incorreto, o medo, a fome, o vicio, se difundem num só olhar destemido, cheio de sede. Tudo vira sede no fim. Você sabe, a fome é meio que sede, porque seca. Seca a gente por dentro, por fora, e secos de amor meio que piramos. A sede é uma forma de fome, uma enorme falta de tudo que não temos mais, ou que temos mas está longe, ou que já tivemos um dia e hoje, não temos mais. Esse é mais um daqueles momentos desenhando pássaros nas paredes do quarto e querendo criar asas longas para poder voar longe, além das paredes azuis. Vontade de recriar nos únicos braços que se sente falta um lugar eterno onde pudesse regressar sempre, como um ninho seguro, cheio de paz, comida, e segurança. Mas então a verdade vem como uma onda, e sabe-se que o ninho será derrubado pelo vento, ou que a arvore que o sustenta despencará, dia ou outro. Sabe-se também que nada é para sempre, e nesse desespero que me acrescenta minha sede só aumenta. Minha sede. Por ti.
Annabel Laurino
Dear
Sei lá o que é isso. To aqui de novo com as mãos atadas,
tomando café quente, fervendo sem sentir nem mesmo a boca formigar em protesto.
To escutando aquela musica dramatississima que você coloca sempre que quer
chamar minha atenção por que sabe que eu choro escutando ela, por que sabe que
ela tem tudo a ver com a gente, com nosso passado de um ano atrás. Ah mas eu
não sei o que fazer. Sério mesmo, não te minto. Eu nem mesmo entendo quem ou o
que é você. Só sei que não resisto a alguma coisa que tem em você. Meu
psicólogo disse que é química, mas estou pensando que pode ser algo muito mais
pesado, tipo física, matemática, espiritismo, química, astronomia e por ai vai.
Ver você naquela roupa de nerd saída de um filme americano com o sorriso torto,
os lábios grossos, as mãos que eu gosto, o cheiro que eu amo, da vontade de te
morder. E eu fico pressa em mim mesma gritando comigo, dizendo, para sua louca,
ele não é para você, para quieta, segura o facho, senta ai, cala a boca, não
toca nele, não respira, para, não, não puxa ele, não, não abraça, sai de
perto... Mas já era. Lá estou eu com meu sorriso de criança carente te pedindo
um minúsculo bocado de sua atenção, suplicando por um beijo, por uma réstia do
teu gosto que eu guardo sempre como uma criança obesa escondendo doces embaixo
da cama.
Acho que não é
falta de amor não. Amor eu tenho de sobra. Todos nós temos. Minha falta é você,
que colou em mim e sei lá, camuflou, virou uma parte minha, se uniu a mim, a
minha parte feia, minha parte bonita. Não sei, ta complicado. Mas to
despreocupada. Por mim tudo bem, sei que dói, sim dói bastante, mas já entrei
nessa a muito tempo, só estava querendo cavar um buraco para os lados desse
túnel que já estou trancada a tempos. Tanto faz. Amor da minha vida, paixão desenfreada,
daqui até a eternidade. Te quero sempre muito bem, de preferência embaixo
desses meus olhos embaçados que julgo castanhos. Milhares de beijos para você,
meu bem.
Annabel laurino
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Desorganizaram-se e de repente um não sabia mais onde estava o outro, levaram alguns segundos para localizar-se outra vez, os olhos de cada um lendo no rosto do outro o que ainda não tinham decifrado no próprio olho.
Caio Fernando Abreu
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