sexta-feira, 23 de setembro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Chorei


Ontem chorei. Por tudo que fomos. Por tudo o que não conseguimos ser. Por tudo que se perdeu. Por termos nos perdido. Pelo que queríamos que fosse e não foi. Pela renúncia. Por valores não dados. Por erros cometidos. Acertos não comemorados. Palavras dissipadas.Versos brancos. Chorei pela guerra cotidiana. Pelas tentativas de sobrevivência. Pelos apelos de paz não atendidos. Pelo amor derramado. Pelo amor ofendido e aprisionado. Pelo amor perdido. Pelo respeito empoeirado em cima da estante. Pelo carinho esquecido junto das cartas envelhecidas no guarda- roupa. Pelos sonhos desafinados, estremecidos e adiados. Pela culpa. Toda a culpa. Minha. Sua. Nossa culpa. Por tudo que foi e voou. E não volta mais, pois que hoje é já outro dia. Chorei. 

Caio Fernando Abreu


Precisando


To precisando de alguém que me segure forte
Que me agarre com força
Por que sou como água, fluo sozinha
Eu estou aqui, parada, quieta, sou a calmaria em carne
Mas fluo
Horas e outras não estou mais aqui
Preciso que me agarrem, mãos fortes e precisas, para que me prendam
Por que preciso disso
Preciso sentir-me segura
De um conforto, de um cheiro, de um gosto, de um afago
Tão, tão fácil que é
E tão complicado de se fazer
Por que não entendo, muitas vezes fujo
E quando fujo é pra valer
Daí você tem que me caçar em um jogo que nem eu mesma entendo
Acontece que eu sofro de mais
Por vezes, dores que nem são minhas
E fujo com essas dores, para que ninguém veja o quanto sofro
Preciso de alguém que perfure lá dentro, lá no intimo, que instigue, que puxe, que cole
E não descole depois
Preciso de chocolates
Cobertores
Sol
Flores
Música
Danças
Corações quentes
E sorrisos sem fim
Preciso de algo longe do eterno
Eternidade é muito tempo para se contar
E acho que não tenho esse tempo todo
Mas preciso de algo, do tipo, agora
No momento
E que tenha recheio
Não me venha com nada vazio
Nada de que eu não possa me lembrar depois
Com um sorriso no rosto
E duas lágrimas latentes escorrendo pelo rosto febril.

Annabel Laurino.

Ta ardendo tanto amor.
E arde, arde, arde.
Que dor febril essa.
Começa no peito e toma conta de mim.
Até minhas lágrimas estão febris agora.
E ardem, ardem, ardem...
Uma ardência calórica, que não tem fim
E como arde
Uma queimadura arderia menos
Ardência, querida
Saia de mim
Por que machuca de mais essa dor
E não estou gostando disso,
Embora chore, e arda,
Chorando e ardendo
Há muito tempo aqui.

Annabel Laurino.

Eles não se entendiam, raramente concordavam em algo. Brigavam sempre. E se desafiavam todos os dias. Mas, apesar das diferenças, tinham algo importante em comum: eram loucos um pelo outro.

(O Diário de uma paixão)

Como soube partir


Você estava aqui agora a pouco
Mas não vi como soube partir
Não houve rastros e nem marcas de sua saída
Apenas um fio de seus cabelos sobre minhas vestes brancas
Não teve cheiro seu guardado em camas
Nem um pingo de seu suor em meu corpo
Muito menos teu reflexo no meu espelho
Tuas mãos já não se encaixam nos meus seios
Teus olhos já não ilustram meu corpo
Seus pés barulho não fazem mais
Teus dedos cortados dos meus já foram
E nenhum fio que nos ligava se encontra mais aqui
Você partiu
E eu esqueci

Annabel Laurino

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

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Eu pensei que havia escutado batidas na porta
A madrugada era languida e vazia
Nenhum suspiro cortava a noite
E nenhum corpo transpassava o véu do céu negro
Ninguém havia na porta
E ninguém respondeu quando perguntei quem era
Tua alma branca passou por mim
Não reconheci-te de nenhum lugar
Mas tuas feições brandas eram compridas e doces
Teu passado em uma linha curta se juntava ao meu
No ato lúdico e colorido
Estávamos juntos outra vez
Tuas mãos colaram-se as minhas
Tua voz tornou-se água fluindo do seu peito
Tudo era vago e completo
E o fim chegou
Eu acordei.

Annabel Laurino.

domingo, 18 de setembro de 2011

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Oras, vamos lá!
Mais um domingo para se matar á pauladas.
Mais um santo 
E bendito,
Maldito
Domingo!



dói.


Não sei mais, só sinto que dói.
Meu peito, meus braços, minhas pernas, tudo bem.
Ta tudo em perfeito estado físico.
Mas por dentro.
Lá dentro.
Um terremoto toma conta de mim. Picos de gelos explodem no ar, milhares de arvores são arrancadas do lugar, chuvas e temporais arrastam tudo, mares e ondas gigantescas engolem o escuro obscuro breu de duvida.
Eu não sei se parto ou se fico.
Se te abandono e te deixo em paz.
E quão paz seria essa?
Seria bom não me ter mais aqui?
Seriamos felizes?
Você sorriria? Você gostaria?
Por que eu não.
Se sinto dor é por que te amo, e te amo tanto que já não sei dizer. Droga, eu quero que você arrume as coisas, droga, eu quero que você fiquei com a gente.
Eu to precisando parar de escrever por que nada mais me vem, eu já nem sei mais o que escrevo, tudo que escrevo é um borrão sem nexo, sem sentido.
Eu to com dor, e tudo dói.
Tudo é doloroso de mais.
Sou como uma criança esperneando na cadeira, virando o rosto, implorando para que a mãe me deixe sair e que não me force a comer mais nenhuma colherada dessa comida amarga e enjoada.
Por favor, suplico, por favor chega. Mas a vida me aglutina e me entope de suas colheradas amargas.
To querendo chorar e to chorando mesmo.
Amor eu digo, amor por favor, fica. Fica aqui. Não vai.
Mas dói dizer qualquer coisa a mais agora, por que eu já disse tudo. Já disse de mais.

Annabel Laurino.


quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Insatisfeita


    Nada me satisfez hoje. Adentrei em uma bolha vazia. Enevoada e recheada de ilusões, me cobri de um cobertor de frieza. Nem as prateleiras atulhadas de livros da livraria, o expresso quente e cheiroso, os biscoitos adocicados, o olhar insinuado, a ligação nova e recebida, o dinheiro ganho, as novidades, nada. Simplesmente nada me satisfez.
    Caminhei como sempre gosto de caminhar para perder o tempo, ri e gargalhei. Tudo tão falso e não sentido. Meus dentes se mostravam lá dizendo “olá” para o mundo, a quem quisesse ver e acreditar no sorriso que esboçavam molemente. Falso, ele não dizia nada além de nada.
    Não sei por que. Não me satisfiz.
    Cores e cheiros não me chamaram a atenção. O dia passou como um borrão preto tingido por um pincel velho num quadro quebrado. Não senti nada. Não senti fome, e nem dor, não senti saudade, não senti nada de bom, nada de especial. Não fui tocada e nem beijada, não fui sentida e nem amada. Mais um dia se passou. Tua presença não estampou a pagina do meu dia, teu cheiro não grudou na minha roupa, teus olhos não transpassaram meu corpo e tuas mãos tão tocaram minhas mãos.
   Do nada procurei uma forma de fugir da dor. Da monotonia desacelerada, da descontinuidade de tudo. As pessoas me cansam, tudo me cansa. Qualquer coisa e assunto se torna um fardo pesado, qualquer vontade que seja é como buscar uma força horrenda e imensa para levantar uma casa com uma só mão. Seja comer, dormir, andar... Não importa, é difícil de qualquer jeito. Meus olhos ficaram como pequeninas bolinhas desligadas, vendo tudo, não registrando nada. E nem quero registrar nada. Pra que? Esse vazio, essa coisa, essa mesma coisa de sempre. To tão causada por dentro, tão... Tão perdida. Estou tão com fome de alguma coisa que não to sentindo mais nada, além disso.
    Aqui dentro só bate o tempo que passa e a ansiedade em pensar que cada segundo que passa é um segundo perdido que não volta mais. É uma hora sem sentido, é mais horas sem saber de nada, é até então um dia. Um dia que eu perco por não ter ganhado você pra mim, é mais um dia que perco por não saber por que na verdade eu estou aqui. Por que que na verdade eu tento.

Annabel Laurino.